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A história das bruxas e da bruxaria

Uma bruxa é na maioria das vezes retratada no imaginário público como uma mulher velha, nariguda e encarquilhada, exímia e manipuladora de Magia Negra e a dotada de uma gargalhada bizarra
A história das bruxas
É inegável a conexão entre visão e a visão da Hag ou Crone dos anglófonos. É também muito difundida a imagem da bruxa como a de uma mulher sentada sobre uma vassoura voadora, ou com a mesma cruzada por entre as pernas, andando aos saltitos. Alguns autores empregam o termo, contudo, para designar as mulheres sábias detentoras de informação sobre a natureza e, provavelmente, Magia. Algumas bruxas históricas adquiriram um pouco notoriedade, como é o caso das chamadas Bruxa de Evóra, bruxa de Salem e Dame Alice Kytler (bruxa inglesa). São também bastante conhecidas na literatura de ficção, como nos livros da popular série Harry Potter, nos livros de Marion Zimmer Bradler (Autora de As Brumas de Avalon), que abordam sobre uma vasta comunidade de bruxos e bruxas cuja maioria escolhe a magia negra, ou a trilogia sobre as bruxas Mayfair, de Anne Rice. As bruxas foram implacavelmente caçadas durante a inquisição na Idade Média. Um dos métodos usados pelos inquisidores para identificar uma bruxa nos julgamentos do Santo Ofício consistia na comparação do peso da Ré com o peso de uma Bíblia gigante. Aquelas que fossem mais leves eram consideras bruxas, pois se dizia que as bruxas adquiriram uma leveza sobrenatural. Frequentemente as bruxas são associadas a gatos pretos, que dentre as Bruxas Tradicionais são chamados Puckerel, muitas vezes tidos como espíritos guardiões da Arte das Bruxas, que habitam o corpo de um animal. Estes costumam ser designados na literatura como Familiares. Diziam que as bruxas voavam em vassouras à noite e principalmente em noite de lua cheia, que faziam feitiços e transformavam as pessoas em animais e que eram más. Hoje em dia essas antigas superstições como a da bruxa velha da vassoura na lua cheia já foram suavizadas, devido à maior tolerância entre religiões, sincretismo religioso e divulgação do paganismo. Geral Gardner tem destaque nesse cenário como o pai da Religião Wicca – A Religião da Moderna Bruxaria Pagã, formada por pessoas que são Bruxos/as masque utilizam a ‘’Arte dos Sábios’’ ou a ‘’Antiga Religião’’ mesclada a prática e conhecimentos de outras tradições. A classificação de agia como negra e branca não existe para os bruxos, pois se fundamentam nos conceitos de bem e mal, que não fazem parte de suas crenças, por ISS, como costumam dizer, toda magia é cinza. A Arte das Bruxas como era feita antes é chamada de Bruxaria Tradicional, ainda remanescendo até os dias atuais em grupos seletos, via de regras ocultas. Hoje também pode-se encontrar uma vasta quantidade de livros e sites explicam a ‘’Antiga Religião’’ mais geralmente se tratam de Wicca, pois os membros de grupos de Bruxaria Tradicional costumam preferir o ostracismo, revelando-se publicamente apenas em ocasiões especiais ou para que novos candidatos os localizem. 

História 

À afirmativa de existência de bruxas à forma retratada em registros da Idade Média incluindo histórias infantis que permaneceram em evidência até os dias de hoje, admite-se uma ressalva: elas parecem ter existido apenas no imaginário popular como uma velha louca por feitiços enigmáticos, surgidas na esteira de uma época dominada por medos, quando qualquer manifestação diversa ou mesmo a crença na inexistência de bruxas da forma retratada pelas autoridades clericais era implacavelmente perseguida pela Igreja.
A feitiçaria já era citada desde os primeiros séculos de nossa era. Autores como o filósofo grego Lúcio Apuleio (123-170) fazia alusão a uma criatura que se apresentava em forma de coruja (Hécate) que na verdade era uma forma descente de certas mulheres que voavam de madrugada, ávidas de carne e sangue humanos.
Para os intelectuais, estes acontecimentos não passavam do imaginário popular, sonhos, pesadelos e, assim, recusavam-se a admitir a existência de bruxas. Porém, entre muitos povos não era assim: os éditos dos francos salianos falavam da Estrige como se ela existisse de fato. Os penitenciais atestavam a crença nessas mulheres luxuriosas. No início do século XI, Burcardo, o bispo de Worms, pedia aos padres que fizessem perguntas às penitentes no intuito de descobrir se eram seguidoras de Satã,(...) se tinham o poder de matar com armas invisíveis cristãos batizados (...) Se sim, quarenta dias de jejum e sete anos de penitências.
Até ao século XIII a Igreja não condenava severamente esse tipo de crendice. Mas nos século XIV e XV, o conceito de praticas mágicas, heraesias e bruxarias se confundiam no julgo popular graças à ignorância. Eram, em geral, mulheres as acusadas. Hereges, cátaros e templários foram violentamente condenados pela Inquisição, tomando a vez aos judeus e muçulmanos, que eram os principais alvos da primeira inquisição (século XIII). Curiosamente, foi exatamente a partir da primeira inquisição que a iconografia cristã passou a representar o “Arcanjo Decaído” não mais como um arcanjo, mas com a aparência de deuses pagãos, como Pã e Cernunnos. Tal fato levou, séculos após, à suposição de que bruxas eram adoradoras do demônio, o que não faz sentido, uma vez que a figura do demônio faz parte do dogma cristão, não pertencendo às crenças pagãs e nem existindo personagem de caráter equivalente ao diabo em qualquer panteão pagão. O uso alternativo do nome Lúcifer para designar o mal encarnado, na visão cristã, agravou a ignorância a respeito do culto das bruxas, uma vez que o nome Lúcifer, pela raiz latina, representa portador/fabricante da luz (Luz Ferre), inescapável semelhança ao mito grego de Prometeu, que roubou o fogo dos céus para trazê-lo aos homens.
O movimento de repressão à bruxaria, iniciado na Idade Média, alcançou maior intensidade no século XV para, na segunda metade do século XVII, ter diminuída sua chama: o número de processos de feitiçaria no norte da França aumentou de 8 no século XV, para 13 na primeira metade do século XVI, e 23 na segunda metade, chegando a 16 na primeira metade do século XVII, diminuindo para 3 na segunda metade daqueles século e para um único no seguinte (Claude Gauvard-membro do Institut Universitaire de France).
Em 1233 o Papa Gregório IX admitiu a existência do sabbat e esbat. O Papa João XXII, em 1326, autorizou a perseguição às bruxas sob o disfarce de heresia. O Concílio de Basileia (1431-1449) apelava à supressão de todos os males que pareciam arruinar a Igreja.
Uma psicose se instalou. Comunidades do Centro-oeste da França acusavam seus membros de feitiçarias. Na Aquitânia (1453) uma epidemia provocou muitas mortes que foram imputadas às mulheres da região, de preferência as muito magras e feias. Presas, submetidas a interrogatórios e torturadas, algumas acabavam por confessar seus crimes contra as crianças, e condenadas à fogueira pelo conselheiro municipal. As que não confessavam eram, muitas vezes, linchadas e queimadas pela multidão, irritada com a falta de condenação.
Os tratados demonológicos e os processos de feitiçaria se multiplicaram, por volta de 1430, marcando uma nova fase da história pré-iluminista, de trágicas dimensões. Em 1484 o Papa Inocêncio VIII prolongou a bula summis desiderantes affectibus, confirmando a existência da bruxaria. Em 1484 a publicação do Malleus maleficarum (“Martelo das Bruxas”) orientou a caça às bruxas com ainda maior violência que obras anteriores, associando heresia e magia à feitiçaria.
A Inquisição, instituída para combater a heresia, agravou a turba de seguidores inspirados por Satã. Havia, ainda, um componente sexista. Os bruxos existiam, mas eram as mulheres, sobretudo, que iam queimadas nas fogueiras medievais.

História da bruxaria 

A palavra bruxaria, segundo o uso corrente da língua portuguesa, designa o uso de poderes de cunho sobrenatural, sendo também utilizada como sinônimo de feitiçaria. Conforme proposto pelo historiador norte-americano Jeffrey B. Russell existem três pontos de vista principais sobre o que é bruxaria: o primeiro ponto de vista é o antropológico, que demonstra a bruxaria é sinônimo de feitiçaria; o segundo é o histórico, que através de documentos escritos coloca a bruxaria (européia) como uma prática ligada ao culto ao diabo; o terceiro é o da bruxaria moderna ou hodierna, que defende a bruxaria como religião pagã (ou neo-pagã).
É importante ressaltar que determinadas ramificações modernas professa não reconhecer o diabo, dentre outros elementos judaico-cristãos, em suas práticas. Segundo a leitura do fundador da Wicca (uma vertente da bruxaria moderna), Gerald Gardner , em consonância com fontes doutras das mais diversas verdentes, muitas verdentes hodiernas da bruxaria praticam culto à Deusa e/ou ao Deus em sistemas que variam de uma idade única Hermafrodita ou feminina à pluralidade de panteões antigos, mais notadamente os panteões celta, egípcio, assírio, Greco-romano e normando (viking). Grande parte dos grupos de praticantes hodiemos considera, inclusive, que diversas deusas antigas são diferentes faces de uma única Deusa.

Tipos de Bruxaria 

A confusão entre bruxaria e magia levou muitos praticantes e leigos a criarem equivocadamente a dicotomia “bruxos brancos” e ”bruxos negros”, supondo que os que buscassem/praticassem apenas o “bem” seriam bruxos brancos, e os que buscassem/praticassem apenas o “mal” seriam bruxos negros. Porém, praticantes de bruxaria, em seu sentido mais lato, não se pauta, pelos conceitos vulgares de bem e mal, considerando toda e qualquer magia como cinzenta (um misto da dualidade expressa metaforicamente de várias formas,e,g. luz escuridão, construção e destruição, positivo e negativo, “bem” e “mal”). A grande divisão que se pode fazer atualmente entre grandes grupos na bruxaria é entre a tradicional e a moderna.

Bruxaria Moderna 

Bruxaria moderna é considerada pela maioria das tradições feitiçarias como um sinônimo para as surgidas embasadas ou a partir da fundada por Gerald B. Gardner, por vezes considerada sinônimo de Wicca, muito embora Raven Grimassi, referência mais conhecida da stregheria (bruxaria italiana), considere Charles Leland o pai da bruxaria moderna.
Ainda que supostamente iniciado por bruxas tradicionais, Gardner juntou, junto aos conhecimentos que elas teriam lhe passado, simbólicas e práticas ritualistas de Alta Magia, bem como o princípio ético formulado pelo controverso ocultista Aleister Crowley (“fazer o que tu queres, há de ser o todo da Lei”), ligeiramente modificado como “se a ninguém prejudicares, fazer o que desejares”, firmando assim as bases de uma nova crença.

Bruxaria Tradicional 

Bruxaria Tradicional é aquela anterior às tradições wiccanas e/ou o reconstrucionismo religioso de práticas pagãs ligadas a uma tradição específica. Bruxaria Tradicional é uma expressão cunhada por Roy Bowers (pseudônimo de Robert Cochrane) para diferenciar as práticas de bruxaria pré-garnerianas (isto é, da Wicca criada por Gardner.)
Ao contrário do que se possa supor, os grupos de bruxaria tradicional não-reconstrucionistas vieram ao longo do tempo absorvendo conhecimentos e conceitos diversas expressões de religiosidade e, como não se submeteram à separação entre ciência e religião, também vieram modificando sua compreensão cosmológica e suas práticas com o avanço científico, em muitos casos não podendo (com muitos praticantes também não querendo) ser considerados uma religião perse.

Tradições de Bruxaria 

Tradições de bruxaria ou feiticeiros são conjuntos de crenças e práticas de bruxaria específicas e independentes, estabelecidas a partir da influência de culturas locais ou pela criação de novas linhas iniciáticas, geralmente a partir de um iniciado de grau elevado em outra tradição.
Como a bruxaria em si não é uma religião nem é fundada em estrutura dogmática rígida, com o uso de tecnologias de informação modernas, grupos de praticantes (chamados “covens” quando em vertentes modernas) puderam se expandir para além de fronteiras geográficas locais, o que levou a uma considerável multiplicação de tradições de bruxaria entre fins do século XX e início do século XXI.

Bruxaria Ancestral 

Tradição de bruxaria que venera deuses anteriores ao período histórico, tendo entre suas crenças principais a de que o ser humano não é superior aos demais animais e que tudo no universo segue o mesmo fluxo, por eles chamado de “Dança da deusa”. Seu fundador, G.L. Taliesin, foi iniciado e membro do Conselho de Anciãos da Tradição Ibérica, entretanto as experiências místicas pelas quais passou desde o início o levaram a desenvolver ainda dentro da Tradição Ibérica uma veneração à parte, voltada a de idades mais antigas que as lusitanas, veneradas em seu conventículo de origem.
Acumulando-se divergências ideológicas e filosóficas, o cisma que deu origem à nova tradição foi natural e inevitável, com a criação da Ordem Sagrada de Bennu, sediada no Brasil.

Documentário da história das bruxas e bruxarias da Idade média até os tempos atuais

Magia e bruxaria na Idade Média e no Renascimento

De acordo com o juízo comum, magia e bruxaria estão mais ou menos numa relação de sinônimo, embora magia assinale algo mais elevado, mais nobre, mais decoroso: a magia pode ser perigosa e terrível, mas nunca é desprezível. Merece nosso desprezo somente na medida em que se revela ser engano ou mentira, o que, no entanto, acontece muitas vezes.
A magia pode ser “natural” ou “cerimonial”. Essa instituição é muito antiga e se destaca desde o século 13, ou seja, desde que alguns pensadores cristãos, muito zelosos na defesa de sua própria ortodoxia, mas também, ao mesmo tempo, interessados naquela ciência da natureza que possuía tantas relações com o pensamento mágico, quiseram separar, com muito cuidado, uma magia “natural”, dirigida apenas à investigação do universo, e uma magia “cerimonial”, caracterizada pelo emprego de meios e cerimônias idôneos invocar os espíritos. A primeira forma de magia era, evidentemente, - do ponto de vista cristão – legítima, a segunda não. Os pensadores que introduziram e ampararam esta instituição foram homens como Alberto de Colônia (o mestre de Tomas de Aquino), Roger Bacon, Ramón LIull. Mas, na verdade, os investigadores modernos puderam demonstrar que tal distinção fica no nível teórico e que, na prática, na própria magia “natural” havia muitos elementos “cerimônias” (Zambelli, 1973). Isto ficou mais claro no Renascimento, com exemplos de sábios como Massilio Ficino, Nostradamus, Paracelsus, Agrippa de Netteshein.
Porém, sempre segundo o juízo comum, a magia “natural” e mesmo a magia “cerimonial” não têm nada a ver com a bruxaria. O discurso é diferente se usamos outras distrações, na verdade menos antigas e autorizadas, mas infelizmente difundidas hoje em dia: da “magia branca” e “magia negra”, por exemplo, que nasce de muitos equívocos; ou aquela – muito empírica – da ‘’alta magia’’ e da ‘’baixa magia’’ (‘’baixa’’ seja no sentido de vulgar, material ou de terrena e mesmo demoníaca.)
Na verdade, todas estas distinções têm uma raiz nobre. Trata-se do de Civitate Dei ou do Divinatione Deamonium de Santo Agostinho, obras nas quais – com forte sentido polêmico contra os gnósticos – ele discute a distinção gnóstica entre duas formas de invocar os espíritos e de dominar, através de sua sabedoria, a natureza, ou de conhecer o futuro com a sua ajuda. Estas duas formas são, em grego, a teurgia (“arte de atuar com os deuses”) e a goeteia (“arte de atuar com as coisas da terra, da matéria”). Atuando em teurgia, diziam os gnósticos, referimo-nos apenas a espíritos bons, puros, superiores, com cerimônia spuras e em situações sempre boas; atuando em goeteia (o que permanecia, ao nível teórico, coisa vergonhosa e perigosa, pois proibida), entramos em contato com espíritos maus, inquietos, infelizes, que buscam sacrifícios impuros para manifestarem-se e sempre gozam com o sangue e outras coisas sujas. Com esses espíritos só se atua quando se quer fazer o mal.
A resposta de Santo Agostinho aos gnósticos sobre esse ponto coincide com a fundação da demonologia cristã. Esclarecendo que a goeteia é, sem dúvida, ciência diabólica, Agostinho que a teurgia também o é, porque os únicos espíritos que querem entrar em contato com os homens, sem a ordem de Deus, são espíritos maus.
Podemos. De toda maneira, aceitar a visão comum, que faz coincidir “baixa magia” e “bruxaria”?
A resposta a essa pergunta, se quer ser correta, tem que ser colocada em dois níveis distintos: histórico e antropológico. No histórico o saber mágico apresenta-se como um conjunto complexo de fatores, uma “visão do mundo” orgânica, que também permite a ação prática nas coisas. Há, sem dúvida, na fenomenologia do ato mágico, rituais que se podem aproximar da feitiçaria ou bruxaria, mas a distinção está, seja no método, seja no plano da sabedoria e do conhecimento. O mago age porque e na medida em que conhece as relações entre as coisas; a bruxa só conhece, e de forma mecânica, alguns atos que determinam alguns efeitos nas relações de causa e efeito.
No nível antropológico, de qualquer modo, a distinção entre magia e bruxaria fica evidente: e vemos alguns pesquisadores usar indiferentemente – no basic English, que se tornou a linguagem oficial das relações científicas – a palavra Magic e a palavra witchcraft.
Como nem a história nem a antropologia nos dão respostas claras, fiamo-nos no raciocínio fenomenológico. O espanhol bruja e o português bruxa são palavras usadas no mesmo sentindo em que se usaram strega em italiano, sorcière em francês, witch em inglês, Hexe em alemão, e todas estas palavras traduzem o que nos documentos latinos, a partir do século 13, se entendia por palavras como incantatrix ou melefica (as palavras strix ou striga se afirmaram, no sentido que nos interessa, só mais tarde. Menos freqüentemente se usou também lâmia e arlia).
Nossa cultura européia tem duas raízes: a primeira é bíblica, a segunda Greco-romana. Estas raízes não são “primígenas”: atrás de ambas há uma ampla história de encontros, de relações, e misturas. Nós, aqui, não podemos falar disso. Limitamo-nos, estão, à bíblia e aos gregos e romanos. A Bíblia proíbe o que, em sua tradução latina, é carmina, incantationes, maleficia; ela condena e os incantatores. Ela proíbe, também, toda forma de investigação do futuro e de interrogação dos mortos, como se vê no episódio do rei Saul e a pithonissa de endor.
Gregos e romanos têm uma atitude diferente. Sem dúvida há homens, e sobretudo mulheres, que fazem prodígios, até trazer a lua do céu e fazer com que a corrente dos rios corra ao contrário, subindo da foz à fonte; mulheres que podem, também controlar a metamorfose de seres humanos em animais e dar ordens aos mortos. Desde as divinas Circe e Medéia, filhas do sol, até as incantatrices – algumas repugnantes – das quais nos falam Virgílio, Ovídio, Horácio, Lucano, Stacio e Apuleio, a cultura clássica nos oferece um quadro fenomenológico completo da bruxaria. Mas tudo isso é chamado Carmen ou então cantus, ou seja, “fórmula mágica”, ou simplesmente maleficium, isto é – eufemisticamente – “mal feito”, “crime”.
A cultura medieval, muito antes do renascimento, se enche de literatura latina. Os poetas latinos são inclusive auctoritates, ou seja, é difícil recusar o que eles apresentam como seguros e verdadeiros. Santo Agostinho será obrigado a construir uma completa – e complexa – teoria teológica e demonológica para demonstrar que os prodígios mágicos são somente enganos demoníacos. Frente aos prodígios e rituais dos magos, entretanto, o papel da incantatrix torna-se ao mesmo tempo, simples mas também mais obscuro, mais mau. O magus conhece as leis ocultas do universo, lê o caminho das estrelas, sabe quais são as relações entre os planetas, as pedras preciosas e a alma humana: é um sábio. A incantatrix não sabe ou não tem o cuidado de conhecer coisas que emprega para atuar, e atuar de maneira má. A incantatrix é maléfica, porque faz o mal (feiticeira de “fazer”?). Ela atua, sobretudo, em três direções:
1. A metamorfose. A incantatrix pode transformar-se em animal (frequentemente uma ave de rapina noturna, como um morcego ou uma coruja) e nessa forma perturbar sobretudo as crianças, sugando-lhes o sangue até a morte. Na origem, esta crença era estruturada ao contrário: havia gênios maus que à noite tomavam forma de pássaros sugadores de sangue e de dia a de velhas mulheres. A incantatrix pode também transformar os outros em animais.
2. A incantatrix atua como xamã: viaja aos país dos mortos, fala com eles e graças a eles prediz o futuro.
3. A incantatrix também faz, com seu Carmen, seu cantus, rituais e ervas que ela conhece, maleficia que dão ou tiram amor, que matam as crianças no próprio seio materno, que podem chegar até à morte.
Essas são as características das incantatrix, que a antiguidade e a idade média nunca esqueceram, mas que ao longo de muitos séculos ficaram no fundo das crenças comuns. Com a Idade Média, entraram em contato com a cultura cristã – que permanecia bíblica e romana e não admitia a realidade dos poderes mágicos – e também com crenças novas de origem céltica, germânica, inclusive, mais tarde, eslava e báltica. As crenças em sua expressão folclórica muitas vezes se assemelham: mas a Igreja não preocupar-se com todas aquelas coisas que ela chamava superstitiones, vanitates (Migne, 1850). Entre o século nove e o século onze, por exemplo, em algumas regiões alemãs, muitas mulheres confessavam aos curas que, à noite, enquanto seus corpos jaziam ao lado do marido na cama, seus espíritos voavam em cortejo atrás da deusa Diana. Segundo os curas que relatavam estas confissões, os bispos reagiam rindo e respondiam que tudo isso eram apenas sonhos de pobres mulheres insatisfeitas (Migne, 1852). Os bispos alemães do século onze parecem-nos de acordo com o doutro Freud.
Mas o que aconteceu, nas sociedades cristãs, uns séculos mais tarde? A crise do século quatorze, que começou com uma série de anormalidades agrícolas muito desfavoráveis, e teve seu ápice na ‘’peste negra’’ de 1384, criou uma situação muito ruim, que continuou até a metade do século dezessete, caracterizada por epidemias, carestias, forme e mortalidade, sobretudo de crianças. No nível religioso, aconteceu que, nestes mesmos séculos, a Igreja teve que fazer frente a muitas heresias e, depois, sofrer a Reforma Protestante, que a cortou em duas. No nível político, estes séculos – desde o quatorze até o dezessete – foram os mesmo em que se tentou criar os estados absolutistas modernos, que não admitiam que ninguém nem nada pudesse fugir do seu controle.
Insegurança da Igreja que, com medo da heresia, perseguia velhas superstições das quais nunca, até então, havia cuidado; desastres climáticos, econômicos e sociais para os quais era necessário encontrar um ‘’bode expiatório’’ a quem atribuir responsabilidade; novo e duro controle da sociedade pelo estado absolutista. Estas três circunstâncias, atuando ao mesmo tempo, foram a origem da caça às bruxas como da perseguição de outros marginais, inclusive os judeus.
Num primeiro momento, como se vê muito bem nos tratados inquisitoriais de Bernardo Gui e de Nicholas Eymerich – que são, os dois, do século quatorze, o problema era ver se as bruxas (mas havia bruxos também) podiam ser consideradas heréticas. Como para a Inquisição o mais importante era a heresia, as superstições em si não eram assunto seu. Mas, em muitíssimos casos, a insistência das denúncias, inclusive, ou melhor, sobretudo populares, de acontecimentos de bruxaria, obrigou os inquisidores a considerá-las. As acusações mais frequentes eram de assassinato de crianças, de feitiçarias feitas, também, com o uso de coisas provenientes desses assassinatos (por exemplo, toucinho de crianças pequenas), de profanação de hóstias consagradas. Mais ou menos desde a metade do século quatorze começaram também as acusações de ‘’congresso’’ especiais a que as bruxas chegavam transformadas em animais mágicos (sobretudo bodes), e onde se cozinhavam e se comiam carnes infantis e se mantinham relações sexuais promíscuas, inclusive com o próprio diabo. Essa prática presumida acabou denominando-se ‘’sabbat’’, desenvolvimento do ‘’vôo mágico’’, do qual, no século onze, haviam rido os bispos da Alemanha (Ginzburg, 1990.
Uma grande quantidade de superstições até então dispersas convergiu para esta nova imagem das bruxas, que era a imagem de uma mulher má, aliada do diabo a enlaçada a ele através de um pacto, cuja tarefa era a derrubada da cristandade. Foram os teólogos do século quinze que aperfeiçoaram os elementos que ainda faltavam à imagem ‘’definitiva’’ da bruxa: o pacto com o diabo e a realidade dos poderes mágicos. Foi uma revolução teológica e jurídica que inaugurou a ‘’caça às bruxas’’.
Quero que me permitam acentuar o caráter disperso – como acabo de dizer – dos elementos que começam a compor a imagem da bruxa. Estes elementos se refletem nas palavras vulgares que compreendem o que os textos latinos continuam chamando incantatrix, maléfica, lâmia. O italiano striga, strix refere-se à idéia de metamorfose e de vampirismo; o francês sorcière vem de sortes e indica, antes de tudo, uma técnica de conhecimento do futuro; o espanhol bruja, o português bruxa e o alemão Hexe referem-se ao caráter sagrado de antigas mulheres sábias, pagãs, que habitavam os bosques, e provêm de etimologias que indicam a madeira e as árvores; o inglês witch indica a sábia germânica, a Wicca (veja-se o alemão wissen, ‘’saber’’, ‘’conhecer’’).
Características comum da bruxa nos finais da Idade Média, como as que se vêem no Malleus Maleficarum dos frades dominicanos, Kramer e Sprenger (1484), são o vôo mágico, o pacto com o diabo, o assassinato das crianças, a destruição de farinha e de colheitas, a metamorfose animal. É a construção de um perfeito ‘’bode expiatório’’, ao qual, até a metade do século Ocidente. O que – note-se – não significa que não existiam bruxas, no sentindo de que não existissem mulheres que afirmavam – também espontaneamente, para ganhar dinheiro – serem bruxas. Mas, em última instância, o que era a bruxaria? Uma ficção, uma burla, uma mentira feita para enganar os ingênuos? Uma ilusão criada, inclusive pelas próprias bruxas, quando sob o efeito de substâncias alucinógenas ou de sonhos ou de locura? O êxito – e existiram alguns casos – de poderes ‘’extrasensorias’’? O resultado de um grande mito arquetípico, como sugeriu Carlo Ginzburg em livro recente, História Noturna?

Resumo

Talvez um misto de todas estas coisas. Quem estuda a bruxaria tem que lembrar que limitar-se à fenomenologia é a mais prudente do que tentar uma tipologia; e que nunca será possível estudar as bruxas em si mesmas porque sua voz livre nunca chegou até nós, obrigados a estudá-las através dos documentos de teólogos e inquisidores. Indiretamente. O que vale, por fim, é que os clientes das bruxas são muito mais interessantes que as próprias bruxas. Porque as bruxas são, antes de mais nada, consolatrices afflictorum, vendedoras de sonhos e de ilusões de potência, de triunfo, de vitória, de vingança. E são bodes expiatórios dos maus pensamentos de uma sociedade cheia de desejos e de medo, de vícios e de impotência. A bruxaria triunfa quando não há esperança de outra redenção, nem social nem cultural. Eis porque a ‘’caça às bruxas’’ foi uma grande tragédia. Não apenas para as bruxas.


Referências e Bibliografia
1*Cardini, Franco. "Magia e bruxaria na Idade Média e no Renascimento." Psicologia USP 7.1-2 (1996): 9-16. 
2* Dagnino, Renato. "A tecnologia social e seus desafios." Tecnologia social: uma estratégia para o desenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundação Banco do Brasil 1 (2004): 187-210. 
3* Ginzburg, Carlo. História noturna. Editora Companhia das Letras, 2012. 
4* Evans-Pritchard, Edward Evan, and EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO. Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande. Zahar, 2005. 
5* Nogueira, Carlos Roberto F. Bruxaria e história: as práticas mágicas no ocidente cristão. Vol. 131. Editora Atica, 1991.
6*FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 064.
7*Magia - Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
8*MAUSS, Marcel Esquisse d’une théorie générale de la magie
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